Ainda estou aqui
Marcelo Rubens Paiva
Ainda Estou Aqui, do Marcelo Rubens Paiva, é um relato autobiográfico centrado na história da sua família durante e após a ditadura militar brasileira, com foco especial na mãe, Eunice Paiva.
O ponto de partida é o desaparecimento do pai, Rubens Paiva, preso e morto pelo regime nos anos 1970. A partir disso, o livro não segue um formato de denúncia direta o tempo todo. Ele desloca o foco para as consequências dessa violência ao longo dos anos.
O eixo narrativo mais forte é a mãe. Eunice aparece como alguém que precisou reorganizar a vida após o trauma, criando os filhos, reconstruindo rotina e, ao mesmo tempo, lidando com a ausência nunca resolvida do marido. Décadas depois, ela enfrenta o Alzheimer, e é nesse ponto que o livro ganha outra camada.
Tem dois movimentos principais acontecendo em paralelo:
- memória coletiva: ditadura, repressão, desaparecimento político
- memória individual: deterioração causada pelo Alzheimer
Essa sobreposição é o que sustenta o livro. Enquanto o país ainda lida de forma incompleta com seu passado, a mãe do autor começa a perder as próprias lembranças. A memória, que já era frágil politicamente, se torna biologicamente instável.
O texto é mais contido do que outros trabalhos do autor. Menos humor, mais observação. Não é um livro panfletário, mas também não é neutro. Existe posicionamento, só que construído a partir da experiência pessoal.
Um ponto crítico aqui: o livro pode ser lido como homenagem íntima ou como documento político. As duas leituras funcionam, mas a força maior está na interseção. Ele mostra como violência de Estado não termina no evento, ela se estende na vida cotidiana, nas relações familiares e no tempo.
Se a expectativa for um relato histórico clássico, ele não atende totalmente. Se a leitura for feita como um estudo sobre memória, ausência e permanência, ele entrega com mais precisão.