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A dificuldade de deixar ideias pequenas

Publicado por Wagner Beethoven

Talvez exista um pouco de Sagitário ♐ nisso, mas também acho que tem relação com ter crescido nos anos 80 e 90, numa época em que descobrir coisas ainda dependia mais de curiosidade do que algoritmo.

Sou de uma geração que aprendeu muita coisa desmontando. Mexendo em computador sem saber direito o que estava fazendo, entrando em fóruns estranhos da internet, criando perfil em plataforma que nem existe mais (vou morrer sem saber poir que meu perfil foi bloqueado do Orkut, eu só fazia baixar disco lá 🥺), aprendendo HTML na tentativa e erro (O Grito! que o diga!), instalando coisa quebrada só pra entender como funcionava, acho que isso moldou completamente meu jeito de trabalhar como designer.

Até hoje tenho dificuldade em consumir tecnologia de forma passiva. Quando encontro uma ferramenta nova, quero entender estrutura, comportamento, limitações, possibilidades de adaptação. Uma simples ideia quase nunca fica isolada, ela começa a puxar outras conexões, outros sistemas, outras perguntas.

Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em deixar projetos pequenos.

Começo pensando numa página simples e, quando percebo, já estou imaginando taxonomia, feeds, acessibilidade, automações, organização de conteúdo, API, formas de publicação, arquitetura da informação, preservação de dados, experiência de leitura e mais uma quantidade absurda de possibilidades que provavelmente nem deveriam existir naquele momento. (esse site que você tá lendo mesmo que o diga, da uma olhada na página de estatistica e na /slashes)

Como um bom sagitariano, existe sempre essa vontade de expandir um pouco mais.

Tem um lado positivo nisso. Essa curiosidade constante me ajuda muito em discovery, estratégia e construção de sistemas mais conectados. Ao mesmo tempo, também cria uma certa dificuldade de encerramento. Sempre parece existir mais uma direção interessante para explorar, mais uma camada para investigar ou mais uma ideia querendo nascer no meio do caminho.

Acho que isso também explica parte da minha relação com a internet atual.

Cresci vendo a web como espaço de descoberta, experimentação e construção pessoal. Talvez seja por isso que hoje eu me interesse tanto por IndieWeb, sites pessoais e espaços digitais menos dependentes de plataformas fechadas. Gosto da ideia de uma internet onde as coisas ainda podem parecer humanas, incompletas, estranhas e pessoais, mesmo com ia para me ajudar a “finalizar” as coisas com facilidade, sempre estou pensando num MVP a frente.

E chegando aos 40 anos, isso começa a ganhar outro significado, existe menos vontade de parecer produtivo o tempo inteiro e mais interesse em construir coisas que façam sentido pra mim.

Projetos que talvez não virem produto (os que virarão estão aqui), escala ou performance, só espaços onde minhas obsessões, referências e curiosidades possam existir sem precisar pedir autorização para algoritmo nenhum.

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