E se eu não for nada disso?
Tem uma hora da vida em que você começa a desmontar silenciosamente tudo aquilo que usava para se definir. Não acontece de forma dramática, geralmente vem aos poucos, quase sem perceber.
Você olha para o trabalho e entende que ele ocupa tempo demais para continuar sendo tratado como identidade.
Olha para relacionamentos antigos e percebe quantas versões de si mesmo existiram só para caber nas expectativas dos outros.
Até sonhos que pareciam fundamentais começam a perder contorno, como coisas que fizeram sentido para uma versão anterior sua, mas já não explicam completamente quem você é hoje.
Acho que existe um desconforto muito específico em perceber isso porque a gente cresce acreditando que precisa “virar alguém”. Como se existisse uma versão definitiva esperando para ser encontrada em algum momento da vida:
- o profissional certo,
- o homem seguro de si,
- a pessoa resolvida emocionalmente,
- alguém coerente o suficiente para conseguir responder sem hesitar quem é.
Só que quanto mais o tempo passa, mais eu sinto que quase tudo em nós foi construído antes mesmo da gente ter consciência suficiente para escolher qualquer coisa. Antes do primeiro pensamento já existia expectativa. Nome, comportamento, referência de sucesso, ideia de masculinidade, medo de fracassar, desejo de pertencimento. A gente aprende muito cedo a performar alguma versão aceitável de si mesmo.
Talvez por isso essa pergunta “quem sou eu?” seja tão difícil de responder sem cair em algum tipo de personagem. Porque quando você remove profissão, rotina, validação, relacionamento, desejo de reconhecimento e até aquilo que gostaria de ser, sobra um vazio meio estranho. Não um vazio necessariamente ruim, mas desconfortável. Como se pela primeira vez não existisse uma descrição pronta disponível.
E eu acho curioso como muita gente tenta resolver isso buscando uma essência interior definitiva, uma verdade absoluta escondida em algum lugar, quando talvez ela simplesmente não exista dessa forma organizada que a gente gostaria.
Hoje eu penso muito mais identidade como responsabilidade do que descoberta. Não como algo que você encontra, mas algo que você sustenta. As escolhas que continua fazendo mesmo cansado. As coisas que decide preservar em você quando seria mais fácil abandonar. Os afetos que permanecem importantes apesar das mudanças. Os limites que aprende a criar depois de anos tentando agradar todo mundo. Existe alguma coisa profundamente humana nesse processo de perceber que talvez ninguém saiba exatamente quem é, mas ainda assim todo mundo precisa continuar escolhendo o que fazer consigo mesmo.
E talvez seja isso que mais me pega nessa ideia toda: no fim das contas, a vida não parece muito interessada em entregar respostas definitivas sobre identidade. Ela só continua colocando a gente diante das próprias escolhas, o tempo inteiro. Talvez o mais próximo que exista de “ser alguém” esteja justamente aí, na forma como cada pessoa decide lidar com tudo aquilo que fizeram dela ao longo do caminho.
— O que você é?
— Eu sou [insira sua profissão aqui (talvez seja essa sua reposta)]
— Não é o que você é, é o que faz, se deixar de fazer o que faz, você deixará de ser quem é?
Esse texto nasceu depois de vários momentos revendo o video do @Wesley Cruz
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