O cansaço de existir nas redes
Esse texto nasceu depois desse post no bluesky:
deus sabe a raiva que eu tenho de ter que sempre abrir uma conta do Instagram pra cada coisa que eu tenha que abrir na internet.
— Wagner Beethoven (@wagnerbeethoven.com.br) 17 de junho de 2026 às 13:07
Desde que eu inventei de ter produto digital, entrei numa batalha constante com as redes sociais.
Com o Foco Acessível, isso fica ainda mais evidente. É um produto de supernicho, os números não chegam nem perto do que eu gostaria, mas eu sei que existe muito valor ali. Tem conversa boa, tem conteúdo relevante, tem convidados interessantes e eu sei, sem falsa modéstia, que eu não sou um host ruim.
Eu estudo os temas, preparo as perguntas, trabalho as âncoras da conversa e tento conectar contexto com experiência real. O episódio pode ser longo? Pode. Poderia ser mais dinâmico? Também poderia. Mas, para quem trabalha com acessibilidade, é um momento muito rico para aprender com pessoas que vivem, estudam, pesquisam e constroem esse campo todos os dias.
E aqui existe uma camada importante: nem todo conteúdo precisa seguir a lógica da velocidade.
Quando falamos de acessibilidade, também falamos de diferentes formas de perceber, processar e consumir informação. Mudanças bruscas de fundo, excesso de cortes, fala acelerada, estímulos visuais o tempo inteiro e edição frenética podem incomodar ou afastar parte do próprio público que esse conteúdo tenta alcançar.
Então, em alguma medida, consumir esse tipo de conteúdo também pede empatia. Pede tempo. Pede escuta.
Tenho achado cada vez mais estranho como a gente passou a tratar qualquer conteúdo que exige alguns minutos de atenção como perda de tempo. Parece absurdo não ter mais 30 segundos para “perder” em um áudio de WhatsApp, em um vídeo, em um texto ou em uma conversa um pouco mais longa.
Eu sou ansioso, ouvir tudo em 2x não me ajuda, só amplifica essa sensação de pressa. Gosto de ouvir as coisas em 1x, áudio, vídeo no YouTube, podcast, leitura. Eu tento prestar atenção nas palavras e às vezes me pergunto se essa obsessão por leitura dinâmica, cortes rápidos e consumo acelerado não é também um sintoma coletivo de ansiedade.
As redes sociais mudaram muito a forma como a gente consome conteúdo. Hoje, para ter “sucesso”, parece que tudo precisa virar vídeo curto, frase de impacto, carrossel mastigado, dica rápida, cortes com legenda piscando e promessa de aprendizado em poucos segundos.
O poder de processamento parece cada vez mais rápido, mas também cada vez mais raso e isso cria um problema muito concreto para quem está tentando construir alguma coisa com calma, profundidade e consistência.
No momento de vida em que estou, tenho alguns produtos digitais em construção. E esses produtos precisam existir nas redes (infelizmente é necessário). Eles, precisam ter presença, seguidores, interação, recorrência, consistência visual, narrativa, calendário editorial, conteúdo educativo, conteúdo de bastidor, conteúdo de venda, conteúdo de autoridade.
Só que existe um custo emocional nisso tudo.
Sabe aquele advogado que tem carro de luxo, terno caro, escritório bonito e vive no vermelho? Às vezes sinto que a construção de persona nas redes sociais funciona um pouco assim. Tudo precisa parecer maior, mais sólido e mais bem-sucedido do que realmente está sendo por dentro.
É uma estética permanente de tração, mesmo quando o bastidor é cansaço.
E, sendo um homem só, com tantas frentes abertas, às vezes começo cada projeto já com uma sensação de derrota. Não pela qualidade da ideia, nem pela falta de vontade, mas pela régua artificial que as redes sociais colocam sobre qualquer coisa que ainda está nascendo.
Ecoleta

- Confira: ecoleta.app.br
- Redes @ecoletapp: instagram e linkedin.
O Ecoleta, por exemplo, nasceu de um case de design que fiz em 2020 para uma vaga. Resolvi materializar a ideia, dar nome, comprar domínio e transformar aquilo em um produto navegável, com cara de produto de verdade.
A proposta é simples: conectar pessoas que querem doar recicláveis com cooperativas e artesãos que podem reaproveitar esses materiais. Existe uma lógica de gamificação por trás, integração com redes sociais, banners de conquistas, ranking e uma experiência visual que ficou muito bonita. É um projeto que me dá orgulho.
A11YBR

- Confira: a11yhubbr.com.br
- Redes @a11yhubbr: linkedin, instagram e bluesky.
- Assine: Substack.
Também tem o A11YBR, que já apareceu por aqui em outro texto. A ideia é ser um banco de dados de iniciativas, conteúdos, profissionais e referências em acessibilidade digital no Brasil. É um projeto que muito sentido pra mim, mas ainda tem um engajamento fraco. O sentimento de fracasso aparece, pesa, mas sigo tentando não deixar isso virar desistência.
No meio disso, inventei também uma newsletter. Curiosamente, talvez por exigir menos esforço das pessoas, ela tem crescido melhor. O formato parece mais honesto com o tipo de relação que eu gostaria de construir: menos refém de algoritmo, mais direto, mais cuidadoso, por causa da comunidade que a plataforma tá inserida.
Lombada

- Confira: minhalombada.com.br
- Redes @a11yhubbr: instagram e bluesky.
E agora tem a Lombada, minha iniciativa mais recente. Um aplicativo/site para registrar coleções de gibis, mangás e quadrinhos. É uma ideia antiga, que usei como pretexto em um processo que tive como mentor. Junto com a mentorada, fizemos uma pesquisa, trabalhamos a parte de discovery, mas o final do processo com ela, acabei mergulhando de cabeça em UI, arquitetura do software e processo de manutenção.
Fiz tudo isso para concluir todo o processo.
São projetos diferentes, com públicos diferentes, propostas diferentes e necessidades diferentes, mas todos esbarram na mesma parede: precisam comunicar, precisam disputar atenção, precisam existir em ambientes que favorecem velocidade, simplificação e repetição. Eu ainda não sei como vou dar conta de tantos Instagrams, tantas redes, tantos formatos e tantos calendários, mas vou seguir.
Ao mesmo tempo, não consigo deixar de sentir que a internet perdeu muito com o enfraquecimento do RSS, com a “morte gradual” dos blogs pessoais, com a falta de profundidade dos textos mais densos e com essa ideia de que todo conteúdo precisa caber no tempo de retenção de uma plataforma.
Talvez seja ingenuidade minha, talvez seja teimosia, talvez seja só cansaço, mas eu ainda acredito em conteúdo que pede tempo.
- Em conversa longa.
- Em texto que não precisa correr.
- Em projeto pequeno que nasce devagar.
- Em produto que ainda está procurando seu público.
E talvez a minha batalha com as redes sociais seja justamente essa: tentar construir coisas que precisam circular nelas, sem deixar que elas ditem completamente o valor do que eu estou construindo.
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