Quando ninguém liga, a gente cria comunidade
Desde que migrei para a carreira tech, lá pelos meus vinte e poucos anos, acessibilidade e inclusão passaram a ocupar um lugar central nos meus estudos. Na época, eu talvez ainda não soubesse nomear tudo com precisão, mas já havia uma inquietação ali.
Uma das primeiras situações que me marcou aconteceu em uma empresa que contratou um profissional exclusivamente para desenvolver o site e sistema de uma licitação vencida da Kahal Zur Israel, aqui no Recife.
O público envolvido era formado por stakeholders judeus idosos, e essa informação é importante porque mostra como contexto, cultura, idade, repertório e familiaridade com tecnologia influenciam diretamente a forma como uma pessoa usa um produto digital.
O site ficou muito bonito para o contexto de quinze anos atrás. Visualmente, era um trabalho impressionante. Só que as pessoas que precisavam usar não conseguiram se apropriar da experiência. Elas não curtiram, não porque o site fosse feio, mas porque ele não fazia sentido suficiente para elas.
Aquilo acendeu uma curiosidade que nunca mais apagou.
Criar interfaces bonitas era pouco
Comecei a estudar acessibilidade, usabilidade e inclusão porque percebi que criar interfaces bonitas era pouco, uma experiência digital podia ser bem resolvida visualmente e, ainda assim, falhar completamente para quem mais precisava dela. A partir dali, a cada nova experiência profissional, fui acumulando aprendizados, mas também uma frustração recorrente: muita gente só passa a se importar com acessibilidade quando alguém próximo se encaixa em alguma dimensão da diversidade.
É uma percepção dura, mas foi se confirmando ao longo dos anos. Acessibilidade costuma aparecer tarde, aparece depois da reclamação, depois do risco jurídico, depois da crise de imagem, depois que uma pessoa com deficiência entra no time, depois que alguém da liderança tem uma experiência pessoal com barreira, exclusão ou dependência.
Antes disso, muitas vezes ela é tratada como detalhe, custo, favor ou pauta paralela.
Quando acessibilidade vira incômodo
Na minha última experiência profissional, acessibilidade apareceu nos bastidores como um dos motivos do meu desligamento.
Oficialmente, a justificativa foi falta de fit cultural. Extraoficialmente, a conversa era outra, esse tipo de coisa é difícil de provar, mas também é difícil de ignorar quando você vive o processo por dentro e talvez esse seja um dos pontos mais cansativos de trabalhar com acessibilidade: você está falando de direito, qualidade, autonomia, experiência e responsabilidade, mas mesmo assim, em muitos ambientes, isso ainda soa como incômodo.
Dito isso, eu criei o A11YBR.
O A11YBR nasce da frustração, mas também da vontade
Aqui o tom muda um pouco, porque apesar de toda a frustração acumulada, eu estou genuinamente animado com o projeto.
O A11YBR nasceu como uma comunidade para reunir, organizar e compartilhar informações sobre acessibilidade digital no Brasil. Conteúdos, pessoas, ferramentas, eventos, pesquisas, iniciativas, referências, oportunidades e discussões que muitas vezes ficam espalhadas.
Eu joguei essa ideia para o universo e estou vendo ela ganhar forma.
Junto com a comunidade, também criei uma newsletter. A ideia é publicar quinzenalmente uma curadoria com assuntos relevantes sobre acessibilidade, tecnologia, design, produto, desenvolvimento, pesquisa, inclusão e tudo que atravessa esse campo.
- Mesmo sabendo que a aderência inicial pode ser baixa.
- Mesmo estando inserido em comunidades de acessibilidade.
- Mesmo sabendo que o tema ainda circula muito menos do que deveria.
A verdade é que, muitas vezes, parece que ninguém realmente liga.
A gente ganha mais quando se une
Aqui vem outra camada do desabafo: até entre profissionais que trabalham com acessibilidade, às vezes existe uma lógica de isolamento, disputa ou autopreservação.
Eu entendo parte disso. O mercado é difícil, o reconhecimento é desigual, os espaços são poucos e muita gente precisou brigar muito para ser ouvida.
Ainda assim, eu acredito que a gente ganha mais quando se une. Competição, para mim, faz sentido no esporte. Na vida profissional e nas causas sociais, competição excessiva gera ruído, fragmenta energia e enfraquece agendas que já enfrentam resistência suficiente.
Acessibilidade digital no Brasil precisa de mais conexão, mais circulação de informação, mais reconhecimento mútuo e mais espaços onde pessoas diferentes possam contribuir sem precisar disputar protagonismo o tempo inteiro.
Talvez seja promoção, tlvez seja desabafo.
O A11YBR nasce desse lugar: da frustração, sim, mas também da vontade de construir alguma coisa útil. Um espaço para dar visibilidade ao que já existe, aproximar pessoas, organizar conhecimento e fortalecer uma pauta que não deveria depender da boa vontade de quem decide.
Talvez esse texto seja uma promoção do projeto, mas também é um desabafo e talvez as duas coisas possam existir juntas.
Confira os links do projeto:
Site: a11yhubbr.com.br
Instagram: instagram.com/a11yhubbr
LinkedIn: linkedin.com/company/a11yhubbr
Bluesky: bsky.app/profile/a11yhubbr.bsky.social
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