Margem Viva

Mulher jovem sentada no chão de um quarto, encostada na cama, segurando um cigarro aceso enquanto fumaça sobe; ao redor, há objetos espalhados como embalagens e utensílios, sugerindo uso de substâncias.

Quando tudo começa a se conectar (e pesar um pouco)

Publicado por Wagner Beethoven

Semana passada, comecei a anotar alguns conceitos com a cabeça meio bagunçada — não no sentido ruim, mas naquele estado em que você percebe que várias coisas que pareciam isoladas começam a formar um desenho. Não veio como uma linha lógica. Na hora, parecia aleatório; depois, começou a fazer sentido.

O quanto da minha vida eu organizo pra não sentir?

Uma coisa que ficou martelando foi a tal da evitação experiencial, conceito da Terapia de Aceitação e Compromisso. Basicamente é o quanto eu ajusto minha vida pra não entrar em contato com coisas que me incomodam — e isso é mais sutil do que parece. Não é “fugir de problema”, mas evitar conversa, adiar decisão, se distrair até esquecer, trocar desconforto por qualquer coisa que anestesie. Funciona, no curto prazo, funciona muito bem. O problema é que, aos poucos, você não está resolvendo nada, só está ficando menor pra caber no que não te incomoda.

Talvez não seja só sobre mim

Ao mesmo tempo, não dá pra olhar isso só como algo individual. A ideia de Sociedade do Cansaço, do Byung-Chul Han, bateu forte aqui. Porque não é só “eu evitando coisas” — é o contexto que exige demais o tempo todo. Você precisa produzir, estar bem, evoluir, se posicionar, aprender, se reinventar, não tem pausa real, sem limite claro. E aí fica difícil separar: o que é meu e o que é do sistema. Aprendi um pouco sobre o assunto nos [vídeos do Alfredo Oliva][0].

Escolher demais também cansa

Outro ponto que fez sentido foi o paradoxo das escolhas, do Barry Schwartz. Hoje tem opção pra tudo e, mesmo assim, parece que decidir ficou mais difícil. Quanto mais opção, mais dúvida; mais dúvida, mais medo de errar; mais medo, mais travamento. E aí entra um loop curioso: se escolher gera desconforto, evitar escolher vira estratégia. Só que isso empurra a vida pra um estado meio suspenso.

Meu corpo já entendeu coisas que eu ainda estou processando

Teve uma parte que saiu um pouco da cabeça e foi pro corpo. Coisas simples tipo respirar melhor, cantarolar, desacelerar — tudo ligado ao Nervo Vago. Ou até coisas mais diretas, tipo água fria no rosto, que ativa o Reflexo de mergulho dos mamíferos. Isso mexeu comigo porque mostra um negócio meio óbvio, mas que a gente ignora: nem tudo se resolve pensando melhor. Às vezes, o corpo precisa sair do estado em que está pra mente acompanhar.

Nem todo desconforto é igual

Também apareceu a palavra disforia — e aqui não é só no sentido clínico específico. É mais amplo: aquele incômodo difícil de explicar, nada é exatamente tristeza e nem é exatamente ansiedade. Um desalinhamento, um “não tô bem”, mas sem saber exatamente por quê. E isso complica tudo, porque é difícil lidar com algo que você não consegue nomear direito.

Tem coisa que vem de muito antes

Teve um momento que caiu um ano específico. 1998. Não era sobre o ano em si — era sobre o que ficou ali. Isso me fez pensar o quanto algumas coisas que hoje parecem “do nada” talvez sejam só versões atualizadas de coisas muito antigas. A tal da “rigidez” também entrou aí — não sei se é o melhor termo técnico, mas fez sentido como sensação: um jeito de reagir, pensar, se proteger, que parece automático demais pra ser recente.

Viver fora do agora é quase padrão

Juntando tudo, ficou claro um padrão meio óbvio e meio incômodo: eu passo muito tempo fora do presente — ou preso em algo que já aconteceu, ou tentando antecipar o que ainda nem aconteceu. E aí faz sentido essa ideia do “aqui e agora”, muito usada na Gestalt-terapia. Perceber o que está acontecendo agora, no corpo, na cabeça, na situação. O “jogar por aqui e por agora” entrou muito nesse lugar pra mim — menos simular cenário, mais testar no real.


Talvez o ponto não seja resolver tudo.

Se tem uma coisa que ficou depois de juntar tudo isso é: o objetivo não é eliminar desconforto. Porque toda tentativa de fazer isso parece gerar mais problema. Evitar demais reduz a vida. Controlar demais cansa. Escolher demais paralisa. Pensar demais não regula o corpo. Talvez seja mais sobre aumentar a tolerância e conseguir sentir sem precisar reorganizar tudo pra fugir daquilo. Ainda não tenho resposta fechada pra isso — mas já mudou a pergunta. E, honestamente, isso já muda bastante coisa.

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