Margem Viva

Visão do motorista dentro de um carro à noite, com uma mão no volante; para-brisa com gotas de chuva e luzes desfocadas da cidade ao fundo.

Um mês de terapia e a estranha experiência de não tentar controlar tudo

Publicado por Wagner Beethoven

Estou completando um mês e um dia de terapia e, sendo bem sincero, eu não fazia ideia de que ia ser tão transformador. Sempre fui o tipo de pessoa que se prepara muito pra tudo. Antecipar cenário, pensar resposta, montar estratégia. Dessa vez, fiz o contrário. Fui sem armas, sem armadura. Só fui. Deixando fluir e tentando receber o que viesse.

Antes de escolher o terapeuta, fiz o que qualquer pessoa ansiosa faz: fui pro Instagram perguntar como escolher um. Recebi “duzentas” respostas. Muita opinião, muita técnica, muito caminho possível.

Um amigo chegou mais direto: “Não faz isso. Escolhe um. Se fizer sentido, continua. Se não, troca.

Foi o que fiz — fui no Google, como um bom internauta raiz, caí no Doctoralia, escolhi um perfil e marquei e fui.

Rapaz… tem sido massa, de verdade. Se eu tivesse mais dinheiro, iria duas vezes por semana sem pensar muito. Mas o que mais tem feito diferença são os exercícios. Coisas simples, mas que, na prática, mudam muito como eu me observo no dia a dia.

Organizei tudo em um formulário (até falei aqui, o terapeuta liberou) pra conseguir acompanhar melhor:

💭 Registro de pensamentos, emoções e reações: Comecei a perceber o quanto eu misturava tudo. Achava que estava “sentindo”, quando na verdade estava pensando. Separar isso muda o jogo. Nomear tristeza, ansiedade, raiva… e perceber como o corpo reage. Tem dias que só isso já diz muita coisa.

🧩 Desfusão cognitiva: Essa aqui foi um choque — entender, na prática, que pensamento não é verdade. Quando você escreve “estou tendo o pensamento de que…”, parece pequeno, mas cria uma distância absurda. Dá um respiro. Você deixa de ser o pensamento.

🧘‍♂️ Meditação guiada: Não é sobre relaxar bonito. É sobre ficar ali com o desconforto sem tentar resolver. Observar a respiração, notar o pensamento vindo e indo. E, no final, uma frase simples que às vezes pesa mais do que parece: “Posso sentir isso e ainda seguir em frente.”

🎯 Roda de valores pessoais: Aqui começa a ficar mais concreto. Olhar pra áreas da vida e se perguntar, de 0 a 10, o quanto você está realmente vivendo aquilo. Família, trabalho, saúde, relações, lazer… Não é sobre estar perfeito. É sobre perceber onde você está negligenciando sem nem notar.

📔 Diário de flexibilidade: Esse talvez seja o mais prático no dia a dia. Identificar quando eu estou tentando controlar demais, qual pensamento automático vem, e qual seria uma alternativa mais flexível. Nem sempre funciona. Mas só de tentar, já muda a relação com a situação.

🎭 O passageiro indesejado: Essa metáfora ficou comigo. Você está dirigindo um ônibus e um passageiro começa a gritar. Medo, dúvida, ansiedade. Você pode parar e discutir com ele… ou seguir dirigindo, mesmo com ele lá. Sempre tentei expulsar esse passageiro — hoje começo, aos poucos, a aceitar que ele vai aparecer. Mas ele não precisa decidir o caminho.


Ainda é pouco tempo. Um mês e um dia não resolve a vida de ninguém, mas já foi suficiente pra perceber uma coisa que eu ignorava: não é sobre controlar o que eu sinto ou penso o tempo todo. É sobre conseguir olhar pra isso sem entrar no automático.

Talvez a maior mudança até agora seja essa — menos tentativa de dominar tudo, mais disposição pra observar, e, no meio disso, ir seguindo. Mesmo com o passageiro falando alto.

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